NO PAIN, NO GAIN



Para muitos “sofrer” significa algo ruim, algo que deve ser banido da vida de todo ser! Mas nós aqui do Zeitgeist já podemos ter uma visão um pouco mais clara de uma afirmação como essa. A começar pelo “significa algo ruim”.

“Das coisas que te molestam poderás livrar-te, pois muitas dessas coisas provêm de tua opinião.” [1]

A citação acima já passou por aqui no texto sobre Marco Aurélio e também faz parte de um exercício estoico realizado com a finalidade de examinar nossas impressões, como vimos no texto sobre Epicteto.

Então para não se ter uma ideia subjetiva – ou seja, particularizada - do sofrimento, não podemos deixar nossas opiniões e impressões - que são decorrentes da experiência de cada um - interferirem em nossos pensamentos. Ok! Até este ponto já conseguimos compreender através dos textos anteriores. Mas daí a dizer que o sofrimento/ a dificuldade é algo que não deve ser banido da vida pode aparentar um passo bem grande rumo ao abismo. Mas só aparenta! Na verdade, a dificuldade pode sim levar ao topo! Segue lendo! =]

 “A todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança e a desgraça dos derrotados. ”[2]

Sim, caro leitor! É isto mesmo o que está escrito! O que Nietzsche quer dizer aqui é que o sofrimento também tem um lado positivo! Veja, o senso comum enquadra o sofrimento e a dificuldade numa posição imutável de dor, desolação e angústia. Mas, Nietzsche não anda com o rebanho, nada de senso comum aqui!! Se ousarmos olhar para o “sofrimento” sem essa classificação clichê, podemos encontrar muito mais coisas - algumas até vantajosas!

Sem dificuldades não há vitória, não há sucesso! Embora muitos imaginem o sucesso como fácil e natural para algumas pessoas, na visão de Nietzsche não existe um caminho reto até o topo.

“Não falem de dons ou talentos inatos. Podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e transformaram-se em gênios. Elas fizeram isso superando dificuldades." [3]

Hmmm então, veja bem: não basta só sofrer! Se fosse assim, todo sofredor seria bem-sucedido... A diferença aqui está em como encaramos o sofrimento, a dificuldade. Se vemos no sofrimento uma oportunidade de evolução pessoal, de auto-superação, de transvaloração dos próprios valores, tem-se aí um caminho que pode levar ao topo, ao sucesso, à transposição de mais uma montanha – para seguir a metáfora de Zaratustra!

Pode levar ao topo”. “Pode”. E para que essa afirmação se torne livre de incertezas, há um fator determinante: a perseverança. Desistir no meio do caminho não leva ninguém ao cume. Assim como também há casos de pessoas que diante de um problema preferem o consolo, o conforto e acabam por sequer iniciar a trilha rumo ao topo... Dificuldades são normais, o que não se pode é perder o controle e desistir da caminhada. A conclusão de Nietzsche é clara, direta e famosa:

“Aquilo que não me mata, me fortalece. ” [4]

Aí entra também o conceito já bastante abordado aqui sobre o amor fati. Amar o que nos acontece, independente do que seja, e, ao mesmo tempo, aproveitar cada instante para evolução pessoal.

E tem mais! Veja, depois de superado um determinado obstáculo conquista-se uma habilidade nova, a habilidade desenvolvida para que se superasse o problema. Assim, quando uma situação semelhante ou, ao menos parecida, se repete, ela já não é mais problema. A evolução pessoal para a super(ação) daquele obstáculo já foi adquirida! Logo, quanto mais obstáculos transpostos, mais evolução pessoal se conquista.

“ (...) consideram que o sofrimento é algo que deve ser exterminado. Nós vemos as coisas a partir de um ponto de vista oposto a este, e nosso espírito está aberto diante deste problema. Em que condições e em que forma a planta humana desenvolveu-se mais vigorosamente até agora? Acreditamos que isto se produziu sempre em condições completamente opostas, que foi necessário que o perigo que acicata a vida humana crescesse até a enormidade. Acreditamos que tudo que existe no homem é útil para elevar o nível da espécie humana.” [5]

Por este ponto de vista, o sofrimento não é algo assim tão desvantajoso quanto dizem, não é mesmo?! 😄A Profª Viviane Mosé inclusive diz que é o sofrimento que move a vida! O segredo está em olhar sempre o lado positivo de tudo, o segredo é gostar da vida! E a vida é composta de momentos felizes e momentos de dificuldade. O que acontece é que estamos numa sociedade doutrinada a acreditar somente em finais felizes, uma sociedade infantilóide, que nega o sofrimento e, portanto, não amadurece.

Nietzsche era fã das tragédias gregas justamente por isso. Elas mostravam todos os percalços do caminho do protagonista e ainda assim não garantiam que no final tudo desse certo. Elas não mostravam os finais felizes que vemos nos contos de fadas, ao invés disso, mostravam a realidade nua e crua da vida.

Agora o pensamento de Nietzsche a respeito do sofrimento começa a ficar mais palpável? Claro que a citação [2] é uma maneira nada convencional de mostrar que só evoluímos através do sofrimento. Mas se fosse convencional, não seria Nietzsche!

Há várias metáforas interessantes para essa auto superação e evolução pessoal desencadeadas pelo sofrimento. A subida às montanhas é a metáfora preferida de Zaratustra. Para chegar até o cume é preciso perseverar e ultrapassar todos os obstáculos do caminho. Essa metáfora foi apresentada no texto sobre o EspíritoLivre. Outra metáfora seria a prática desportiva. Para se conquistar habilidades físicas é preciso muita disciplina e superação muscular e mental diária. E claro, nada disso vem sem dor. Essa metáfora foi apresentada no texto sobre Epicteto. Podemos ainda pensar nas bailarinas, que para apresentar movimentos leves e precisos tanto sofrem com os pés, mas nem por isso desistem da profissão. 

Quando se supera um obstáculo é a Vontade de Potência que se afirma. É a vida que diz que quer seguir em frente, que quer evolução. Dificuldades podem ser vistas como desafios! É apenas uma questão de ponto de vista!

E fechamos como começamos, com Marco Aurélio:

“Hoje saí de todas as dificuldades. Melhor, expulsei-as, pois não residiam fora de mim, mas em mim, nas minhas opiniões.” [6]

E você? Qual montanha está subindo? Qual músculo está trabalhando?

Boas reflexões e boa semana!

Até o próximo texto! 🙌

Renata Chinda
rechinda@gmail.com

CURIOSIDADES

(1) A Prof Viviane Mosé participou de uma entrevista muito interessante sobre o tema do sofrimento. Quem tiver curiosidade em saber um pouquinho mais, segue um trecho de apenas 4min. Clique aqui.
Ahhh ela também tem uma série no Youtube que se chama: “Manual de sobrevivência no mundo moderno.” São episódios de mais ou menos 10 minutos e que procuram apresentar as principais características da sociedade atual e como conviver/trabalhar com elas da melhor maneira possível.

(2) Outro dia, numa conversa com um amigo, ele fez o seguinte comentário: “Se removêssemos o Ego do caminho, tudo seria mais fácil ”. E, de fato, sem o ego na jogada as dificuldades se tornam bem menores! Para quem quiser se aprofundar no assunto, existe um livro chamado “Ego is the enemy” de Ryan Holiday. E ele está lá na biblioteca do Zeitgeist!

(3) Créditos da foto: Lex Kozlik
      Do alto do Morro do Anhagava - Paraná - 03/2017


BIBLIOGRAFIA
[1] Marco Aurélio – Meditações –Livro IX - §32
[2] Nietzsche
[3] Nietzsche
[4] Nietzsche - Ecce hommo
[5] Nietzsche – Além do Bem e do Mal - §44
[6] Marco Aurélio – Meditações –Livro IX - §13


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